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ABPM ONLINE – Boletim Informativo ABPM 709

Nº 709 - NOVEMBRO DE 2020

A VEZ DA MADEIRA ENGENHEIRADA

Oriunda de uma matriz regenerativa da cadeia florestal, a madeia engenheirada vem ganhando espaço no mercado da construção civil brasileira. Esse material permite construções em larga escala com prazos reduzidos e sem desperdício de recursos. Trata-se de um produto tecnológico obtido a partir de matéria prima ancestral, leve e de baixo impacto ambiental, mas que não abre mão da resistência e precisão. Para falar do panorama deste produto em âmbito nacional e mundial, o especialista no assunto e engenheiro civil da Stamade – Projeto e Consultoria em Madeira, Guilherme Corrêa Stamato, que possui o cargo de Coordenador da Comissão da Madeira Tratada na Construção Civil na ABPM, conversou conosco e trouxe sua visão sobre as oportunidades e os entraves deste ramo no país. Confira:

Como você enxerga o atual panorama do setor de madeira engenheirada no Brasil? O Brasil está começando a vislumbrar uma crescente demanda de produtos engenheirados de madeira, que está se mostrando como tendência mundial de alternativa para a construção civil. Temos no Brasil diversas iniciativas positivas de projetos de edifícios a novas empresas surgindo com o propósito de desenvolver produção, montagem e comercialização de edificações utilizando madeira engenheirada como uma das principais soluções. Como esse tipo de construção não é parte da cultura recente dos brasileiros, existem algumas barreiras a serem transpostas nos próximos anos. A primeira é a técnica e normativa, que já estão bastante avançadas com a revisão de normas de projeto de estruturas de madeira e de normas para construção em woodframe junto à ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

Em seguida devemos trabalhar as barreiras de órgãos fiscalizadores e financeiros, apresentando as soluções técnicas de acordo com as normas e comprovando a eficiência dessas soluções segundo os critérios aprovados. Cabe ressaltar que no Brasil já está em vigor há alguns anos uma norma para desempenho de edificações residenciais, que se aplica a todas as construções, ou seja, às construções de alvenaria, de concreto, de madeira, etc. Destaco que as construções em woodframe, por exemplo, já comprovaram que atendem esses critérios de desempenho há alguns anos, como é o caso da Tecverde, que tem seu Documento de Avaliação Técnica (DATec,) com essas comprovações, o que a capacita a buscar financiamentos para suas construções em woodframe. Teremos, por último, que trabalhar a barreira cultural, com os consumidores finais, que pelo que temos observado não é uma barreira difícil, pois as vantagens do desempenho dessas construções é evidente para quem faz uma visita. Obviamente é necessário um trabalho mais abrangente para divulgar essas vantagens.

Creio que teremos também os mesmos percursos para as construções mais verticais, para os edifícios nos sistemas denominados de madeira “massiva”, ou seja, os edifícios de dez a vinte andares com pilares e vigas de Madeira Laminada Colada (MLC) ou de Madeira Microlaminada (LVL) e pisos e paredes de Madeira Laminada Colada Cruzada (CLT), que ainda estão sendo avaliados quanto ao desempenho, mas que pela experiência do que já foi desenvolvido em diversos países, não terão dificuldades em atender ao desempenho necessário.

Você acredita que o setor pode se aproveitar da recente onda sustentável para tentar implantar mais iniciativas com CLT na construção civil? Como?

Pessoalmente acredito que esse deveria ser o principal motivo para uma migração dos sistemas construtivos atuais para os que utilizam madeira como matéria prima. Temos conhecimento do quanto a construção civil convencional é poluente e emissora de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, entendo que a melhor forma de dar valor para a floresta é dar valor para seus produtos. É significativo observar que os países que mais se desenvolvem no uso da madeira como solução estrutural, também são os países mais proeminentes na proteção ambiental, tais como Canadá, Suécia, Finlândia, Áustria, entre outros.

Vejo no mercado brasileiro que as vantagens de sustentabilidade não são precificadas, ou seja, não se atribui valor a essas vantagens que possam ser ponderadas ao compor um orçamento de uma construção. Sendo assim, hoje esse serve mais como um critério de desempate do que de valor. Porém, o que tenho observado nessa onda de evolução recente do uso da madeira é que outros benefícios de usar a madeira com alta tecnologia é que tem impulsionado seu uso além das questões de sustentabilidade.

Além dessa onda de sustentabilidade, existe também uma onda muito grande de busca por eficiência do processo produtivo, que para a construção civil em geral é muito baixa. Buscando reverter essa baixa produtividade, muitos países e muitas empresas estão se desenvolvendo no conceito de “off Site Construction” que significa aumentar as atividades da construção fora do canteiro obra, dentro de um ambiente de fábrica, com muito mais controle de qualidade, livre das variações de intempéries e com grande possibilidade de automação dos processos. Nesse conceito, os componentes precisam apresentar características como boa relação leveza peso, trabalhabilidade, precisão, entre outras. O concreto, por exemplo, apesar de ser bastante versátil, tem uma relação de peso/resistência muito ruim se comparada com a madeira e o aço. Assim, para o transporte e içamento de peças estruturais, paredes de concreto se tornam mais onerosas que as de madeira. Nesse caminho, também é importante destacar a grande evolução tecnológica que o processamento da madeira tem passado, chegando à altos índices de precisão, de velocidade e de qualidade.

Tudo isso fundamentado na aplicação de tecnologias como softwares de projeto em 3D, centros de usinagem automatizadas por comando numérico, sistemas de rastreamento de peças, entre outros, que elevaram a madeira a um patamar de produto de alta tecnologia agregada. Essa tem sido a principal onda que está impulsionando o uso de produtos engenheirados de madeira em muitos países.

Por que ainda não vemos muitas iniciativas construtivas com madeira engenheirada no país? Falta incentivo ou tecnologia para o setor brasileiro?

Culturalmente nosso país não olhava para a madeira como um material onde se poderia empregar tecnologia. A visão geral é de uso da madeira como um produto extrativista. Felizmente tivemos bons exemplos por muitos anos, produzindo madeira laminada colada principalmente. Mas esses exemplos foram muito pontuais e não foram capazes, sozinhos, de mudar uma cultura. O momento agora é outro, pois novas empresas estão surgindo já com foco na geração de negócios focados no uso de madeira engenheirada.

Como a madeira não tinha essa bagagem tecnológica e como o setor madeireiro não apresenta uma organização setorial focada na construção civil, como é o caso o cimento e do aço, também nunca houveram ações em busca de incentivo ao uso da madeira, ou incentivo ao investimento em tecnologia para o parque fabril, ou mesmo para o desenvolvimento de novas tecnologias. Alguns países como França, ou mesmo o Chile, tem tido ações governamentais para estimular o uso da madeira na construção civil e consequentemente aumentar o consumo de materiais que sequestram carbono em substituição aos que emitem. Outro ponto importante a ser trabalhado no âmbito de incentivo governamental refere-se à cadeia produtiva da madeira, que é muito mais pulverizada em pequenos produtores do que aço e concreto, além de estar presente em todas as regiões do país, e não limitado à jazidas minerais que não estão presentes em todo o território nacional. Estímulos à setores com essas características tendem a ser mais eficientes, com resultados para as economias locais mais abrangentes e criando um circulo virtuoso mais interessante do ponto de vista social, econômico e ambiental.

Recentemente, você participou de lives promovidas pelo WCTE sobre madeira engenheirada. Como foi a recepção do público?

O público do WCTE (World Conference on Timber Engineering) já é um público focado em pesquisas e desenvolvimento das estruturas de madeira. Para esse público, as novas tecnologias de produtos engenheirados de madeira representa um desenvolvimento científico e evolução dos trabalhos que muitos já estão acompanhando, ou mesmo desenvolvendo. Mesmo assim, é muito estimulante para todos que pesquisam nessa área assistir palestras apresentando aplicações grandiosas desse conhecimento em edificações reais.

Qual é a importância de eventos como esse para a disseminação de informações sobre o tema no Brasil?

Essa foi a primeira edição de lives do WCTE, que deveria ter sido realizado em agosto passado, desta vez no Chile. Mas devido à pandemia do COVID 19, a edição presencial teve que ser adiado para 2021. Como forma de preencher essa data em que estava previsto o evento presencial, criaram o evento virtual. Já participei de quatro outras versões, presenciais, e vejo que as lives perdem a interação humana e de relacionamentos presenciais, mas considero que esse formato deveria ser adotado para eventos mais frequentes, pois proporcionam uma grande difusão de conhecimento a custos muito baixos. Esses eventos são muito importantes para divulgar os avanços científicos e tecnológicos, mas geralmente o público desses evento já é representante da comunidade que está envolvida nos desenvolvimentos com a madeira.

Além desses, é muito importante que as soluções tecnológicas com produtos engenheirados de madeira sejam apresentadas em eventos que tenham como público o setor de construção civil de forma geral, como congressos de construção, feiras do setor de construção, de incorporação e de venda imobiliária, levando esse conhecimento e dando credibilidade para as construções tecnológicas com madeira.

O que o Brasil pode aprender com outros países, como os da América do Norte e Europa, que já possuem larga experiência neste segmento? Devido a falta de investimento nos setor de madeira para a construção civil, o Brasil é historicamente um consumidor de tecnologias para colheita, desdobro e beneficiamento de madeira. Certamente isso vai ocorrer também com as tecnologias de produção de produtos engenheirados. É interessante observar aqui que no caso de MLC, CLT e woodframe, os países europeus estão na ponta de desenvolvimento de tecnologias, bastante à frente da América do Norte inclusive, e que eu recomendaria como referência na busca por tecnologias para impulsionar o uso da madeira na construção civil. Considerando como benchmark países como Alemanha, Áustria, Suíça, Suécia, Finlândia, França, etc, o Brasil precisa dedicar bastante energia para a qualidade da madeira, desde a floresta e colheita, até o controle de qualidade final, precisão nas dimensões, e, principalmente, investindo em tecnologia e modernizando nosso parque industrial.

Quais são as vantagens da madeira na construção de edifícios, quando comparada com o método de alvenaria?

As novas tecnologias de produtos engenheirados de madeira, com peças de grandes dimensões e possibilidade de usinagem com precisão milimétrica permitem a industrialização da estrutura e consequentemente um grande ganho de produtividade na montagem das estruturas. Como os projetos já são feitos por softwares que usam a plataforma BIM, a previsibilidade desse tipo de construção é muito maior que as de sistemas construtivos moldados no canteiro, resultando em assertividade muito maior nos custos e nos prazos.

Do ponto de vista de desempenho, a madeira apresenta propriedades térmicas e acústicas muito boas, por não ser um transmissor térmico ou sonoro. Um ponto muito interessante na construção com grandes elementos de pilares e vigas de MLC e lajes e paredes de CLT está no desempenho em situação de incêndio, que tem se mostrado muito superior ao concreto e ao aço, quando dimensionado adequadamente. Isso se dá devido a um comportamento conhecido da madeira em incêndio, onde a superfície exposta carboniza de forma lenta, mas as regiões internas se mantem com baixas temperaturas e com alta resistência. Por último, um conceito muito valioso que vem sendo estudado é o de biofilia, que trata dos benefícios para o ser humano em ter contato com materiais naturais, como a madeira, em suas edificações. Essas vantagens podem se converter em melhora na saúde e no bem estar dos usuários do edifício.

Quais são as expectativas do setor para o crescimento da madeira engenheirada no Brasil do futuro?

A forma de usar a madeira em estruturas já começou a mudar no Brasil. Já são inúmeros exemplos de estruturas concebidas e executadas com as novas tecnologias, entre elas estão condomínios de prédios de quatro pavimentos montados com painéis pré-fabricados de woodframe, escolas utilizando madeira laminada colada, edifícios de três pavimentos utilizando MLC e CLT, novas indústrias sendo implantadas, novas startup’s sendo criadas com foco na construção de edifícios em madeira, etc. Com esse crescimento da demanda, acredito que haverá uma nova onda de investimento em fabricação de produtos engenheirados de madeira, onde essa demanda poderá direcionar também a silvicultura para que a matéria prima seja conduzida para essa finalidade estrutural. Considerando o rápido crescimento da construção com madeira massiva pelo mundo, criando uma expectativa de demanda por produtos engenheirados nunca visto, estimulando o surgimento de inúmeras fábricas ao redor do planeta, aliado a todo o potencial do Brasil para a produção de madeira, pelo seu clima, sua extensão e pela estágio avançado da silvicultura brasileira, atualmente com foco na produção de celulose, papel e painéis, acredito que o Brasil pode se tornar um dos grandes fornecedores de produtos engenheirados para o mundo nas próximas décadas.

Dentro desse crescimento do setor de madeira nos últimos anos, qual é a importância da qualidade da madeira tratada para o desenvolvimento da cadeia?

O crescimento do uso da madeira em estruturas só está acontecendo devido à aplicação de inúmeras tecnologias para garantir a competitividade, a segurança e a durabilidade das construções. São itens fundamentais para norma de desempenho de edificações para residências (NBR 15.575), segundo a qual uma edificação residencial tem que ter uma vida útil de projeto de 50 anos, independente do material de que ela é feita. Isso torna essencial a qualidade do tratamento da madeira para garantir essa durabilidade. Devemos ressaltar que vivemos em um país de dimensões continentais, com uma enorme biodiversidade e consequentemente uma grande infinidade de espécies de organismos xilófagos, cuja ação é totalmente indesejável para as estruturas de madeira. A publicação da NBR 16.143 em 2013 proporciona um embasamento técnico para a especificação dos tratamentos adequados para cada categoria de uso. Porém, além da norma de especificação, é necessário que todos os procedimentos do tratamento sejam aplicados corretamente para que a madeira esteja efetivamente tratada com a concentração correta dos ingredientes ativos para proporcionar a durabilidade pretendida. Desta forma, a qualidade da madeira tratada é essencial para garantir a confiabilidade do sistema. Somente com qualidade em todos os elos da cadeia é que podemos garantir um crescimento sustentável do uso de sistemas construtivos com madeira engenheirada.

A LIVE DA ABPM SOBRE O PROGRAMA QUALITRAT, QUE OCORREU NO FINAL DO MÊS DE OUTUBRO, AINDA ESTÁ REPERCUTINDO ENTRE OS ASSOCIADOS.

A reunião online contou com as palestras da Celina Almeida do Instituto Totum, que abordou o Programa de Autorregulação do Qualitrat, o qual atesta a qualidade de processos de usinas de preservação de madeira filiadas à ABPM, entre eles os aspectos legais, gestão de qualidade nos processos, gestão ambiental, regularidade social, trabalhista, gestão de saúde e segurança, ética, e responsabilidade social, e da Jota Editora, responsável pela comunicação da ABPM, sobre as possibilidades de marketing para as usinas que já aderiram e vão aderir o Selo Qualitrat, valorizando a marca madeira tratada com investimento em qualidade, credibilidade e visibilidade.

Para o analista da empresa Madtrat, Renato Oliveira Gomes, foi uma live muito interessante com uma linguagem simples, de fácil entendimento. “Achei importante a questão da explicação dos requisitos para a aquisição do programa, pois mostrou que não é tão complicado conseguir a certificação. A divisão dos selos em Ouro, Prata e Bronze abre espaço para empresas novas participarem”, comenta Renato.

Outra associada que participou da live foi a diretora da CM Venturoli, Maíra Venturoli. “Em tempos atuais, essas reuniões online têm sido ferramentas importantes na comunicação. A promovida recentemente pela ABPM sobre o novo formato do Selo Qualitrat foi excelente, foram esclarecidos vários aspectos, dentre eles, as novas categorias: Ouro, Prata e Bronze. Achei muito interessante a apresentação das possibilidades de uso do Selo Qualitrat para o marketing das usinas que já aderiram ao programa. Precisamos explorar essa ferramenta para transmitir ao consumidor credibilidade. Iniciativas como o Selo Qualitrat são muito importantes pois fortalecem, estimulam e incentivam as boas práticas na qualidade de gestão, processos e mercado”, explica Maíra.

Já o Rafael Sandoval Jacintho, diretor executivo da Teca Madeiras Tratadas, ficou bastante entusiasmado com a apresentação e flexibilização do Selo Qualitrat. “É uma autorregulamentação extremamente necessária para o setor. É um desafio que nós temos em colocar parâmetros para os players do setor, que atualmente está totalmente desigual, com uma diferença de preços que variam bastante no mercado, gerando uma falta de credibilidade do consumidor final com os nossos produtos. Com essa nova fase do selo, acredito que vai melhorar bastante, com a participação de um maior número de usinas, com uma maior divulgação ao cliente final. Dessa forma, o mercado comprador vai ter acesso melhor a informação das exigências que uma usina tem que cumprir para ter um produto final com qualidade. A Teca Madeiras Tratadas já começou a organizar a documentação para já aderir ao programa através do Qualitrat Bronze”, completa Rafael.

Expediente

Boletim informativo mensal da Associação Brasileira de Preservadores de Madeira (ABPM)

Presidente: Gonzalo Antonio Carballeira Lopez – IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)

Diretor Vice-Presidente: Elcio Lacerda Lana – Lonza do Brasil Especialidades Químicas Ltda

Diretor Secretário: Jackson Cesar Correa Alves – Madtrat Madeiras Tratadas

Diretor Tesoureiro: Silvio José de Lima – Montana Química S/A

Coordenadora Técnica: Gisleine Aparecida da Silva – IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas)



Jornalista responsável e redação: Fábio Machado

Contato: info@abpm.com.brwww.abpm.com.br

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